ENTREVISTA NA VOZ DA VERDADE
" DEUS FAZ-ME O APELO DE PARTIR EM MISSÃO"
Vanessa Chande tem 29 anos, pertence à comunidade Emanuel. Vive em Évora onde trabalha, mas é de Lisboa. Estudou Serviço Social no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Quando esta entrevista for lida pelos nossos assinantes, Vanessa já estará no Brasil, na missão que lhe foi confiada pela FIDESCO, organização recém criada em Portugal (http://www.fidesco-internacional.org).
Porquê deixar o trabalho e iniciar uma nova vida numa missão que deverá demorar dois anos?
Ora ai está uma boa questão. Eu acho que acima de tudo se prende com uma questão de responsabilidade social, de desafio e de desejo. Atenção, eu não acho que agora todos devíamos deixar os nossos trabalhos e abraçar uma missão internacional de apoio ao mais pobres, muito pelo contrário. Para que estas missões continuem a existir é fundamental a conjugação de dois factores, por um lado, a disponibilidade daqueles que partem e que se entregam totalmente ao serviço de determinado povo sem pé-definições nem pré-conceitos e, por outro, aqueles que ficam, cumprindo com as suas responsabilidades, gerando riqueza para que ela possa de alguma forma ser repartida por aqueles que menos têm e que mais necessitam. Eu sinto há algum tempo este desejo de partir. sinto que o apelo que Deus me faz neste momento é o de partir, de me doar totalmente ao serviço dos outros e contribuir de alguma forma com a minha formação profissional para o desenvolvimento local da população com a qual vou trabalhar.
Quais são as principais expectativas que tem a uma semana de deixar Portugal?
Muitas, cada vez mais! Por incível que possa parecer, não estou nervosa, não perdi o sono e não tenho medo mas estou ansiosa por chegar. Conhecer as pessoas, a "Cachoeirinha" (é o nome do bairro onde vou trabalhar), aprender com eles, ver o centro onde vou trabalhar, enfim... agora é tudo um desconhecido mas na próxima semana, aos poucos começarei a descobrir a terra que me vai acolher nos próximos dois anos, estou super entusiasmanda.
Deixar tudo para se entregar a uma missão é para si uma obrigação imposta pela fé ou apenas um acto de vontade?
Não é certamente apenas um acto de vontade. Se me perguntasse se partir em missão é para mim uma obrigação imposta pela fé ou uma responsabilidade social, eu responderia ambas. É o Deus que eu conheço que celebro e que vivo, que me impele e que me desafia. É este Deus que me ensina a amar e é o rosto deste Deus que eu quero ser para todos aqueles que encontrar independentemente da religião a que pertençam. Eu comecei a pensar mais a sério em partir em missão quando alguém me apresentou números vindos dos países do sul, números reais, de pessoas que vivem com 1 euro por dia. Não consegui deixar de me sentir responsável. E aqui volto à primeira pergunta, é preciso aqueles que ficam mas, também é muito preciso aqueles que partem e que em conjunto com as populações locais arregacem as mangas para trabalhar, trabalhar, trabalhar, por um mundo mais justo.
A sua ligação à Comunidade Emanuel em Portugal foi uma ajuda para a sua decisão?
Foi fundamental. Foi na Comunidade Emanuel que eu conheci os primeiros missionários e a Fidesco, ONG ( Organização Não Governamental) com a qual eu vou partir, pertence à Comunidade Emanuel. Para mim era importante partir com uma organização pertencente À Igreja, cujos valores eu conecesse e pudesse confiar. A Fidesco foi uma escolha natural. Os voluntários que partem não precisam de pertencer à Comunidade Emanuel, aliás, a maioria não pertence, mas os responsáveis pertencem e o facto de eu os conhecer e saber a formação que têm todos os voluntários (9 meses de formação humana e espiritual) levou a que não procurasse noutro sítio.
Como é que as pessoas do seu emprego e da sua família encaram esta decisão? Acho que todos me acham um pouco louca e têm razão! No fundo não os surpreendi. Já não é a primeira vez que saio do país por algo que acredito valer a pena, em 2004 estive em Roma 9 meses a fazer uma Escola Internacional de Missão, e em 2005 mudei-me de Lisboa para Évora para continuar uma missão com jovens universitários e depois com a população mais sénior. Por isso, acho que aos poucos fui habituando toda a família e amigos a coisas diferentes que a eles até podia parecer um pouco radical. Mas no fundo eles percebem que a minha felicidade reside no facto de eu me poder doar totalmente e tenho a sorte de ter uma família que percebe isso lindamente.
O que diria aos jovens que hoje estão indecisos para se iniciarem numa missão?
Se a questão apareceu eu acho que se deveriam debruçar sobre ela e procurar alguém a quem colocar questões. Para mim foi muito importante poder falar com pessoas que já tinham estado um longo período de tempo em missão. Nunca como hoje foi tão fácil obter informação sobre determinado tema, há muitas associações que fazem trabalho humanitário em países em via de desenvolvimento e pode saber-se muito através de uma pesquisa na Internet. Quanto a mim, o importante éão ter medo de arriscar e procurar as pessoas certas. Eu, que ainda estou à espera de partir, acho que o partir em missão nos abre horizontes, nos ensina como ser melhores pessoas e nos ensina como amar gratuitamente. No fundo tudo se resume a isso, a Amar!
Também lhes diria para acompanharem a minha missão através do site: www.aminhamissao.com.sapo.pt
Entrevista e fotos retirados da Voz da Verdade de 09 de Novembro de 2008
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